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"Pois bem, no princípio nasceu Caos;depois,
Gaia de amplo seio, a eterna base de tudo"
(Hes. Th. 116-117)
Gaia, deusa primordial, surgida do Caos*, em meio ao vazio e geradora do ar, do mar e das montanhas. Mãe de todos os deuses, homens, monstros e demais seres. Gaia, que na mitologia clássica personifica a terra, o planeta e sua capacidade de gerar a vida, de abrigá-la e de mantê-la. Gaia, apenas o planeta casa, nossa casa, matéria mãe de toda a existência.
O pensamento predominante no século 20 era de que os seres vivos evoluíram ao longo dos milênios por meio da concorrência, um processo seletivo onde os mais fortes e mais adaptáveis às adversidades do meio sobreviveriam resultando nas espécies que hoje conhecemos. Tal pensamento é encontrado em diversas áreas do comportamento humano e começou a ser questionado, nas décadas de 60 e 70, quando cientistas e estudiosos encontraram brechas e até mesmo novas explicações para a existência e continuidade da vida no planeta.
Poderia a evolução ser um processo espontâneo, ocorrendo em pequenos e grandes saltos, como inúmeros cientistas vêm demonstrando e ainda aproveitar as bases da evolução das espécies segundo Darwin?
Fritjof Capra, físico renomado e professor no Centro Internacional de Estudos Ecológicos, afirma que "quanto mais estudamos o mundo vivo, mais nos apercebemos de que a tendência para a associação, para o estabelecimento de vínculos, para viver uns dentro de outros e cooperar é uma característica essencial dos organismos vivos. O estudo detalhado dos ecossistemas nestas últimas décadas mostrou com muita clareza que a maioria das relações entre organismos vivos é essencialmente cooperativa, e elas são caracterizadas pela coexistência e a interdependência, e simbióticas em vários graus. Embora haja competição, esta ocorre usualmente num contexto mais amplo de cooperação, de modo que o sistema maior é mantido em equilíbrio. Até mesmo as relações predador-presa, destrutivas para a presa imediata, são geralmente benéficas para ambas as espécies."**
Hasime Tokeshi, fitopatologista da USP, afirma que cerca de 70% do sistema imunológico humano depende das bactérias encontradas no sistema digestivo. 'Muitos inimigos são combatidos por estas bactérias antes que cheguem a se relacionar diretamente conosco, por isso não recomendo o uso irresponsável de antibióticos.' Ao ingerirmos antibióticos, destruímos a rede de bactérias do nosso organismo, sendo elas boas ou ruins. 'Na verdade, ficamos mais propensos a adoecer depois de tomar antibióticos, assim seu uso é cada vez mais prolongado.' Bactérias são seres vivos, ao serem massivamente destruídas, sempre restam sobreviventes que se reproduzem, esta é a razão das bactérias estarem cada vez mais resistentes.
Muito além do equilíbrio entre as espécies, entre o Reino Vegetal e Animal, e entre ser vivo e elemento inanimado, é a revolucionária hipótese de Sir. James Lovelock que em 1979, contrapondo todo o saber convencional, expõe a Hipótese Gaia. Lovelock propõe que consideremos o planeta Terra um imenso e complexo organismo vivo onde todos os seres em conjunto aos elementos inanimados (atmosfera, oceanos, clima e crosta terrestre...) interagem como células e órgãos de um único e grandioso ser. Na verdade, os seres vivos - plantas e animais - não são apenas criaturas adaptadas no meio ambiente, é nossa atividade como ser vivo o fator regulador da atmosfera, dos oceanos, do clima e que propicia a existência e a manutenção da vida no planeta.
Ao estudar a possibilidade de vida em Marte, Lovelock perguntou-se: "A atmosfera da Terra era uma mistura extraordinária e instável de gases, e, não obstante, eu sabia que sua composição se mantinha constante ao longo de períodos de tempo muito longos. Será que a Terra não somente criou a atmosfera, mas também a regula, mantendo-a com uma composição constante, num nível que é favorável aos organismos vivos?" Desenvolvendo o pensamento, Lovelock vislumbrou na complexidade o sistema holístico do planeta Terra, "...os organismos vivos agem como uma bomba gigante, retirando continuamente o dióxido de carbono do ar e levando-o para o interior do solo, onde ele pode reagir com as partículas de rocha e ser eliminado..."**
Segundo J. Lutzemberger, reconhecido como o maior ambientalista brasileiro, "a vida jamais poderá ser compreendida nos termos de Descartes, que via nos seres vivos, com exceção dos humanos, simples máquinas, relógios ou autômatos. Só uma visão sistêmica, unitária, sinfônica poderá nos aproximar de uma compreensão do que é o nosso maravilhoso planeta vivo." Ao fim da vida, Lutz, como era carinhosamente chamado, questionava o excesso de biólogos e a ausência de naturalistas: "...a diferença entre eles está na veneração, para o naturalista a Natureza não é um simples objeto de estudo e manipulação ela é algo divino, é sagrada e nós humanos somos apenas parte dela. Daí a atitude do naturalista não poder jamais ser de agressão, dominação, espoliação. O naturalista procura a integração, a harmonia, a preservação, o esmero, a contemplação estética...".
A superioridade e perfeição da Natureza têm influenciado com mais intensidade diversos setores da sociedade, o associativismo e cooperação são implementados em empresas e comunidades preocupadas com a sustentabilidade do planeta. A reciclagem, própria dos processos naturais, deverá desenvolver-se cada vez mais. A nova tecnologia procura imitar a Natureza, no seu desenho, em sua capacidade de reaproveitar energia, em seus mecanismos, em suas fórmulas, etc. O termo Ecologia, de 'Oikos', casa, estudo da casa, deverá transpassar toda a atividade humana neste começo de século.
Nas palavras de Capra: "Chegamos a um ponto de mutação, no qual paradigmas dominantes precisam ser transformados para que a evolução possa prosseguir... uma revolução cultural na verdadeira acepção da palavra. A sobrevivência de todo a nossa civilização pode depender de sermos ou não capazes de realizar tal mudança... O novo paradigma (uma constelação de concepções, de valores, de percepções e de práticas compartilhados por uma comunidade e que estabelece uma visão particular da realidade) pode ser chamado de uma visão de mundo holística, que concebe o mundo como um todo integrado e não como uma coleção de partes dissociadas. Pode também ser denominado visão ecológica, se o termo 'ecológica' for empregado num sentido muito mais amplo e mais profundo que o usual. A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental de todos o fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades, estamos todos encaixados nos processos cíclicos da Natureza (e, em última análise, somos dependentes desses processos)"***
A mudança de paradigma preconizada por diversas religiões, estudos místicos, astrológicos e até filosóficos, está finalmente ocorrendo. Seremos nós, moradores do planeta Gaia/Terra deste início de século, as verdadeiras testemunhas ativas de todo o processo. No pensamento de Mokiti Okada, filósofo japonês dos anos 30, o homem é parte do Universo e este uma criação divina, devido a sua grandiosidade, seria muito para o homem compreender todas suas questões, para ele o caminho para a felicidade é apenas viver em conformidade com as leis Naturais, as leis do Universo, a verdade absoluta. E o que poderia ser uma verdade absoluta? A convivência de todas as verdades, culturas e identidades deste planeta? Ou a uniformização de todos os sistemas? A resposta pode ser simples, observe a Natureza, seus processos de criação-destruição, nascimento-morte, dia-noite... perceba como tudo isso é parte de um processo mais longo, pleno e infinito, e talvez sim, grandioso de mais para ser compreendido pelo homem sozinho.
"A atual crise de demolição supera as anteriores. No organismo da Terra, individualmente, somos células de um dos seus tecidos. E tecido que, hoje, infelizmente, se encontra canceroso." J. Lutz.
*Na mitologia clássica Caos seria o primeiro deus, o principio do vazio, a desordem anterior à ordem, o nada que existia antes da criação.
** 'O Ponto de Mutação' e 'As Conexões Ocultas', editora Cultrix.
*** 'Gaia: Um Novo Olhar Sobre a Vida na Terra' e 'As Eras de Gaia: A Biografia da Nossa Terra Viva', editora Campus.
Por Clarissa Taguchi