Estamos em dias de dúvidas quanto à escolha de nossos representantes políticos, quando a esperança se desvanece no coração das pessoas; quando a indignação se cala, dando lugar à descrença, e à crença na dignidade se responde com um riso cínico, é preciso, mais que nunca, entender que as pessoas são o que elas fazem, não o que dizem ser.
Neste domingo escolheremos nossos representantes. Desejamos que eles sejam honestos, incorruptíveis, sensíveis, trabalhadores, enfim, dignos de nós.
Mas, e nós? quem somos nós?
Muitos de nós viemos da roça. A parte acostumada ao dono da fazenda que batiza o filho, que fornece remédio na doença, apadrinha o casamento da filha e costumes próprios do meio rural.
E a grande massa na cidade, esta parte reproduz a mesma relação subalterna de sua origem humilde. Os políticos, únicas autoridades acessíveis, passam a ser a encarnação do pai ou do antigo patrão, que tudo provê. Estes políticos deves ser fortes, sobretudo astutos, já que ela é fraca e, de certa forma, inocente. Devem ser influentes, já que ela não tem a ninguém. Se roubarem, desde que a atendam, não importa, já que todos roubam. Se prometerem e não cumprirem, sem problema, desde que lhes dêem uma migalha de atenção. E quanto mais prometem, mais enchem-na de esperanças, pois são eles as únicas expectativas possíveis num mundo deserdado de esperanças.
E com dinheiro eles manipulam, pisam o barro das favelas, prometem emprego ou aposentadoria para o marido, tomam cerveja no mesmo copo, pegam bebês no colo, distribuem cestas-básicas ou churrascos na véspera das eleições. E rapidamente se estabelece a troca de favores e, nesta barganha criminosa, corrompem-se as consciências.
Essa estória se dá com o povo humilde. Mas, e a parte do povo diplomado que se vende sabendo que o faz? Os outrora críticos, homens e mulheres que já protestaram contra o regime e defenderam revoluções?
Essa é a parte mais triste. Apóiam os corruptos em troca de um bom cargo e prestígios. Fazem falsas amizades, lautos jantares, inesquecíveis viagens. Apóiam porque são exatamente como eles. Essa parte é a dos hipócritas. Aqueles que freqüentam igrejas com a mesma desenvoltura com que, nas madrugadas, e brinda à esperteza do político-chefe em uma boate qualquer.
Mas, e a parte da gente que não se vende, que não se corrompe, onde está? Certamente irada, incrédula, incendiada, se batendo para que o lodaçal atirado contra a nação seja limpo, o quanto antes.
Mas, o que farão se conseguirem dar um basta à miséria moral que se abateu sobre nós? Começarão a tratar com o devido respeito a sua empregada doméstica pobre e favelada? Permitirão que seus empregados opinem acerca dos destinos da empresa? Concordarão com que seus assalariados possam ter momentos de educação política durante a jornada de trabalho? Não mais pressionarão o professor do filho preguiçoso para que ele seja aprovado na escola? Sairão da frente da TV para participar de reuniões comunitárias? Deixarão de explorar o próximo, de sonegarem impostos, de passarem no sinal vermelho, de jogarem lixo nas ruas, de não furarem filas, de subornarem o guarda, deixarão de se meter a besta e de dizerem “você sabe-com-quem-está-falando”?
É, porque o corrupto não é só quem corrompe. Esses pequenos crimes do dia-a-dia também formam o caldo de cultura onde crescem os políticos criminosos.
A germinação deste tipo de político se desenvolve no ventre de uma sociedade que concorda com o “aqui manda-quem-pode-e obedece-quem-tem-juízo”.
“Isso” se desenvolve em uma sociedade preocupada em discursar valores, se esquecendo de que devem ser praticados todos os dias, sob pena de quando raramente o praticam, de não terem valor algum.
Os homens e mulheres eleitos, que sairão das urnas neste domingo não serão um ente estranho aos nossos valores. Serão exatamente o resultado de quem somos nós.
Então, para melhorar o País, é preciso melhorar o eleitor.
Aqueles que querem livrar o nosso país dos maus políticos devem saber que o trabalho está apenas começando. Com a consciência de que sem esse primeiro passo, o segundo jamais será dado. É um caminho difícil, impossível de vencê-lo sozinho.
E a Grande Mãe continua por pedir clemência, estejamos atentos a isso também... Pois ainda muito pouco vemos na Natureza que seja nosso... E por bem menos desfazemo-nos de nossos corações.
Se acheguem mais, aqueles que querem vencer essa árdua jornada!!! Um crocoabraço cheio de esperança e até a próxima!!!
Por Crocodilo Negro.